segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Fábrica abre suas portas!

Onde você estava quando as torres gêmeas do World Trade Center vieram abaixo em 11 de Setembro de 2001?  Pouca gente lembraria-se disso porque na verdade, não somos tão paranoicos quanto os norte-americanos. Mas acredite, estas paranoias foram o que de mais fantástico ofereceram ao mundo em termos de cultura pop. Uma gama de mitos inseridos em nosso contexto contemporâneo. Personagens que surgiram com complexidades freudianas, filhos do atômico e da guerra fria amalgamados com agentes combatentes que carregam o peso do mundo nas costas regado de adrenalina, arquétipo e workaholic.


Mas é claro que todos estes séculos de produções foi somente sustentável a custo de uma agiotagem institucional e à custo de duas grande guerras que dizimaram a Europa deixando-a em frangalhos. (A coroa inglesa sabe muito bem o que é isso.)

Voltando aquele fatídico dia, não um dia qualquer, mas simplesmente o dia em que o século de fato começou e não somente pelas razões que resultaram na ferida aberta em pleno centro econômico do mundo, mas pelas razões que vou dizer agora.


Estava eu na rua da assembleia, esquina com a Rio Branco, carregando um mochilão enorme cheio de documentos, que precisava entregar em diversas repartições publicas e privadas enquanto eu tentava manter vivo meus sonhos, naquela época.  Foi em frente a uma engraxataria, diante de uma pequena tv, que os engraxates deixavam ao publico para ver as programações enquanto lustravam sapatos de engravatados filhos da elite como juízes e advogados sentados em cadeiras de madeira, jornais em punho e charutos na boca, que vi as torres serem atacadas e virem ao chão em seguida deixando a todos ali boquiabertos. Eu estava na calçada e lá fiquei por um bom tempo.

Foi a partir daquele momento que eu havia me dado conta de que o século que estava por vir iria por em e cheque verdades e crenças há muito inabaláveis como foram as torres gêmeas até aquele momento. Os invisíveis vieram reclamar sua própria visibilidade. Reclamavam um lugar no mundo. De certa forma, eu era um invisível dentro de um microcosmo coletivo e urbano. Dentro dessa malha eu pertencia a outro coletivo de pessoas que estavam na mesma condição que a minha: éramos os assim chamados offices boys. Garotos de recado. Aqueles que fazem todo o trabalho burocrático de leva e traz de documentos oficiais e extraoficiais do mundo corporativo.
Sim, em muitos aspectos eu me sentia como aqueles invisíveis que em um dia bem arquitetado fizeram-se ouvir ao mundo e deixou o então presidente cowboy norte-americano George W. Bush com cara de Alfred E. Neumann em um dia ruim. Mesmo que isto lhes tenha custado caro (será?).
É claro que eu não sairia  por ai explodindo torres ou qualquer outra coisa. Sou muito cagão para isso. Diria até que minhas ambições eram até modestas embora fossem essenciais para a minha existência. Eu queria que o mundo me ouvisse pelas minhas paixões de momento. Não havia sistema de crenças, mas nascera em mim um sentimento politico que só seria amadurecido anos depois quando, finalmente, eu conseguisse ingressar na universidade.
Naquela altura do campeonato eu, assim como todos os office boys já havíamos desistido de se ser jogadores de futebol. Particularmente eu havia transferido meus sonhos para uma banda de rock e não durou muito. O mundo corporativo havia destruído nãos somente meus sonhos, mas daqueles outros membros de minha banda que compartilhavam os mesmos. Os que não se tornaram office boy como eu, tornaram-se garçons de pizzarias suburbanas ou morreram no trafico de drogas. Precisávamos trabalhar e aos poucos o cansaço das 8 horas diárias muitas vezes de domingo a domingo, foi minando nossos sonhos mais ambiciosos.
 Mas como foco de resistência eu ainda tinha uma ultima cartada antes de me atirar no urbanismo da invisibilidade. Comecei a pegar as letras que haviam sobrado de minha antiga banda e os transformei em poemas. Com o tempo, passei para a poesia e foi quando tive a pretensão de esconder “o diário de bordo de um Office boy”. Este projeto não foi muito longe. Sequer saiu da gaveta como um monte de coisas que eu havia feito. Mas até aqui acho que foi bem melhor. Muitas coisas que eu havia escrito era realmente um material ruim apesar de ser bastante honesto.
Mesmo assim, nem tudo era de tão ruim. Ou julgo não o ser. Minha maturidade tem me ajudado bastante em reciclar histórias do passado. Como esta do Skatista. Um texto que eu trouxe à luz com o nome original de crônicas do surfista prateado em homenagem obvia a criação da Jack Kirby/Stan Lee.  Era para ser mais de uma crônica e de certa forma, eu como Office boy me sentia como o surfista da Marvel que ficava impossibilitado de cruzar a barreira do exílio imposta por Galactus, que o liberaria da terra e o levaria para o seu mundo ao encontro de seu povo e sua amada. Romântico não? Só que no meu caso eu passava em frente a rodoviária Novo Rio em plena semana morta de feriadão, vendo pessoas abandonado a cidade enquanto eu ficava pra trás entregando documentos e porque estava duro e sem folga do trabalho.
Então prossegui a história de uma época em que eu aspirava ser um escritor Office boy, desiludido com a literatura e retomando a minha antiga paixão (quando todos os meus outros sonhos foram destruídos pela indústria da vida capitalista-escrava) a transformei em uma história em quadrinhos, mudei o titulo para crônica de um skatista (mas na capa acabei deixando Crônica no plural) também por razões obvias eu tirei o surfista prateado do nome e fiz uma homenagem aos meus pares e aquilo que eu jamais seria: um skatista.
Outra homenagem que eu faço além de mim, dos garotos de oficio e dos skatistas é a representação aqui do herói japonês Spectreman, exibido originalmente pela TV Fuji entre 2 de janeiro de 1971 e 25 de março de 1972. Criado por Souji Ushio (pseudônimo de Tomio Sagisu). E que acompanhei aqui no Brasil durante a segunda metade da década de 1980 a 1990 e algumas reprises no inicio da de 1990. Spectreman era uma espécie de “primo pobre” do Ultraman de outra produtora. De alguma forma eu não consegui entender porque era unanime todos adorarem a família ultra e desprezarem o pobre Spectreman. A paixão só aumentou quando aqui foi lançado na mesma época o gibi do herói pela blog editores desenhado pelo meu segundo Mestre da vida (a primeira foi minha mãe) Eduardo Ventillo e que agora tenho o privilegio de tê-lo como amigo na minha rede social. Fiquei tão obcecado pelos gibis que passei toda a minha infância em vão procurando o boneco do herói nipônico e sem muito sucesso. Quando enfim achei um simulacro muito do feio, mas não menos apaixonante, meu pai não teve condições de compra-lo para mim na época. Mas por alguns momentos pude vê-lo materializado ali na minha frente.
Eu não estava sozinho. Esta obsessão era dividia com meu já falecido irmão Cézar Z.
Não saberia dizer se foi de fato isto que me fez ser o que sou hoje. Um apaixonado pelas HQs. Mas tenho certo que foi uma somatória de coisas e estas principalmente estavam incluídas. Uma paixão que há muito estava soterrada em meu espirito e graças a faculdade de artes visuais e a crença de meus amigos do meu trabalho, pude trazê-la a tona. Paixão esta que existe antes mesmo de minhas outras paixões mais recentes.
O meu skatista roda toda a cidade para entregar documentos secretos a mando de seus “senhores”. Desprovido (teoricamente) de sentimentos e programado apenas para executar funções utilitaristas. O skatista também é desprovido de humanidade (metáfora esta não muito diferente da realidade). A partir daqui eu incluo esta crônica dentro de um contexto que também tentei trabalhar para a literatura (também sem sucesso) chamada A Fabrica, mas que espero dar continuidade por aqui.
Para finalizar novamente reforço aqui que deixo esta crônica a todos os office-boys, que invisibilizados pela cidade como tantos outros pela cidade e pelo poder capitalista e mesmo assim ainda fazem a cidade funcionar.
Torço que um dia as pessoas possam despertar de seus sonos dogmáticos e de fato possam viver seus sonhos. Como deveriam...
E que os invisíveis tornem-se ainda mais visíveis!

para baixar a HQ, clique na imagem de capa.

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